segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O cego que aprendeu a curtir a primavera.

- O sol desabrocha com o brilho da flor, a Terra aquece o céu pela lei do amor, a primavera me despertou! - vibrava um cego de nascença anunciando a chegada da primavera, capaz de reunir multidões através da felicidade contagiante, porque refletia em sua postura toda a perfeição que lhe cercava: belezas naturais, paisagens exuberantes, céu matinal, seres vivos... Saudava e envolvia cada criatura num irrestrito campo de luz e bonança, arrebatando o universo com aquele velho sorriso de criança!

Ninguém resistia àquele jeito único de contemplar a obra divina com extrema sabedoria e intuição, sem perder de vista a modéstia e a pureza. Indagaram-lhe de onde vinha tanto gosto pela vida, como se o sofrimento e o mal não existissem. De cabeça erguida, o misterioso cego respondeu firmemente ao povo:

- Quando eu era cego amaldiçoava a minha cegueira. Hoje, eu a reverencio, pois aprendi a apreciar a primavera mesmo sendo cego, logo: não sou mais cego, sou feliz!

Exultante, o intérprete do bom viver permanece irradiando todo o seu esplendor à multidão:

- Quem é mais vitorioso: um cego que aprendeu a curtir a primavera, mesmo longe de ser cativante e belíssimo por natureza, ou estes lindos e salubres beija-flores que encontram-se aqui neste lugar, os quais já foram gerados predispostos a deliciarem-se de flor em flor, sem qualquer necessidade de combaterem instintos maléficos ou vícios de comportamento? Realização não é plenitude atingida, mas atitude comprometida!

Todos os que ouviam tais prodigiosas palavras brotando da alma daquele ser de luz deslumbravam-se perante sua elevação. Entretanto, um deles ousou lhe perguntar:

- Como o senhor diz: ''estes beija-flores que encontram-se aqui neste lugar'', se o senhor não os vê?

A resposta ficou eternizada na memória daquele florescente lugarejo:

- Sei que estou acompanhado por beija-flores, pois todo ser é acompanhado por outros de sua natureza: assim como estas floridas borboletas acompanham todas estas coloridas flores, as aves carniceiras seguem os infelizes que exalam o odor e a putrefação da revolta contra a vida...

''A causa da derrota, não está nos obstáculos, ou no rigor das circunstâncias, está na falta de determinação e desistência da própria pessoa''. (Buda).

''Dois homens olharam através das grades da prisão; um viu a lama, o outro as estrelas'' ; ''O caminho é estreito e difícil para aquele que caminha por ele com pena de si e tristeza; porém é largo e fácil para aquele que caminha com amor''. (Santo Agostinho).

''Na alma unida a Deus, é sempre primavera". (Santo Cura D`ares).