quinta-feira, 19 de março de 2015

O Monge e a Dor.

Estudiosos da natureza, filósofos e líderes da cristandade pretendiam provar os conhecimentos de um monge zen, pois dizia-se que não havia questionamento que ele não fosse capaz de responder com exatidão. Então os sábios, experimentando-o, indagaram:

- Caro monge, eis uma dúvida intrigante: a beleza e o aroma das flores são uma resposta natural à rejeição que as aves têm dos espinhos, ou são os espinhos uma resposta natural ante a vulnerabilidade das flores aos animais?

O monge confessou precisar de alguns instantes para responder àquela dúvida. Enfim, voltando o olhar ao público, disse com fervor no peito:

- Eu não vim ao mundo para avançar as ciências naturais, e reconheço minha pouca aptidão no assunto. Contudo, lhes ofereço uma preciosa reflexão: quando estamos acometidos por alguma enfermidade sentimos dor e fraqueza para nos resguardar da exposição aos microorganismos maléficos, ou nos sentimos fracos e indispostos em decorrência da moléstia incapacitante que tais seres provocam em nosso organismo? - Causa ou Efeito?

Os que o ouviam não puderam entender a comparação, pois, aparentemente, não havia conexão entre um pensamento e outro. Porém, aquele formidável monge, de cabeça erguida, profere um exímio ensinamento:

- Há mistérios que só o avanço da humanidade pode decifrar, porém eu lhes garanto que nunca haverá dano que não venha a ser sanado pelo tempo, e jamais existirá sofrimento sem um amanhã restaurador, pois todo pranto esconde uma paz em potencial a revelar-se durante o próximo amanhecer. Tudo de agradável ou desagradável que se manifesta no mundo é luz entre as infinitas dimensões, visto que cada um de nossos fios de cabelo é contabilizado com justiça e equidade. Tanto a ideia das flores e dos espinhos quanto a do padecimento e do repouso são indicadores de uma justiça reta a santificar males aparentes, levando-nos à compreensão de que um propósito benigno rege as relações entre a Terra e os Céus. Olhai as rosas deste campo divino: elas têm o mesmo vermelho do sangue provocado pelos árduos espinheiros...

''O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã''. (Sl 30:5).

''Jamais se desespere em meio às sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda''. (Provérbio Chinês).

sexta-feira, 13 de março de 2015

O lobo que queria ser cão.

Entre a natureza selvagem e o sonho da domesticação, um inusitado lobo morria de inveja e ciúme de um pequeno grupo de cães de estimação que acampava com seus donos próximo à escuridão da mata. Cobiçando o afeto dos humanos, lançou-se aos seus pés com a língua estendida, pronto para brincar e ser adotado como um cãozinho.

Homens e cães, por sua vez, fugiam de sua presença assustadora. Assim, carente de atenção, deixou-se dominar pela revolta, de modo a rejeitar a própria família e amigos: dizia ser dotado de uma natureza domesticável e superior à imundície dos seres selvagens daquela maldita floresta.

O tempo passava, e o lobo que queria ser cão sofria cada vez mais: não contava com a companhia de nenhum outro lobo, de nenhum cão, e de nenhum ser humano...

Recordava-se do tempo em que se identificava com a alcateia inteira, quando os homens e os cães ainda não haviam arruinado toda aquela inocente alegria de viver em seu habitat natural, sem apego ou inimizade. Desta vez menos furioso e mais lúcido, valendo-se do bom senso e da vontade de recuperar a vida simples, concluiu que embora não pudesse ser o melhor amigo do homem poderia tornar-se, em espírito, um cão dócil e fraterno, amando incondicionalmente os companheiros de alcateia.

Moral da História I: A hostilidade, a arrogância e a soberba escondem um histórico de vulnerabilidade e humilhação.

Moral da História II: Quando o ser humano deixar de ver no outro o lobo de sua infelicidade, e enfim identificá-lo em si mesmo, vencerá todos os conflitos existenciais.

Moral da História III: Ainda que certas pessoas te tratem como um lobo a se evitar, vale a pena assumir a postura de um cão que chegou para alegrar!

''É a própria mente de um homem, e não o seu inimigo ou adversário, que o seduz para caminhos maléficos'' (Buda).

''O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros'' (Confúcio).