quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

A Lição da Ampulheta.

Pediram a um Mestre:

- Diga-nos algo sobre o tempo, Mestre.

Então o sábio Mestre tomou a sua ampulheta, e a abriu numa das extremidades, adicionando mais areia. O público se maravilharia com os seguintes ensinamentos:

- Notem que assim o tempo demora mais: esta ampulheta com areia adicional é um modelo mental de pessoas que vivem relutantes, no anseio de que o tempo não passe. Obcecadas em alterar a ordem natural das coisas, perdem a noite com medo do amanhecer. Algumas são exageradamente ambiciosas por idealizarem simultâneos projetos estressantes, provocando inesgotável apreensão.

Em seguida, aquele líder espiritual extremamente zen esvaziou a ampulheta, e nela colocou água:

- Notem que assim o tempo passa rápido: esta ampulheta de água seria o sonho de consumo daqueles que ignoram o tempo, a fim de que a vida flua efêmera e irrefletidamente. Detestam repensar seus valores, porque se entregam às próprias paixões. Para eles, o esquecimento associado à compulsão é o maior porto seguro durante um entardecer vazio e carregado de culpa. Assim sendo, só resta fechar os olhos à realidade para que o tempo pese menos e corra mais.

Mais uma vez o sábio esvaziou a ampulheta, colocando novamente areia nela. Deixando apenas uma certa quantidade de areia cair sobre a porção inferior daquele medidor de tempo, ele o virou ao contrário antes da metade do tempo total, e assim o fez repetidas vezes...

- Notem que assim o tempo passa de maneira inconstante: esta ampulheta confusa é o tempo psíquico irregular que se alterna entre extremos existenciais, os quais permeiam futuros inquietantes e passados conflitantes. Lamenta-se pelo neblinoso amanhecer de ontem, ou esbaforia-se com um entardecer que nem mesmo o amanhã sabe que dia vai ser.

Portanto, - proclamou o Mestre irradiando todo o seu esplendor - que o tempo sintonize-se com o tempo: ao amanhecer, vamos aproveitar; ao entardecer, vamos descansar! Feliz é quem é capaz de virar a ampulheta somente após a passagem do último grão de areia, com o fim de vivenciar minuciosamente cada instante em cada etapa com naturalidade e desprendimento, já que ao a virarmos mudamos de perspectiva, nos conectando com outra experiência, seja em atitude ou em pensamento. Tem gente que não se conforma com o curso do tempo e com os desdobramentos dos fatos, e vive virando e revirando a ampulheta da própria rotina em busca de distrações. Quem não se contenta com as sutilezas harmonizadoras do dia a dia, e cogita instantâneos êxtases na multiplicidade de ocupações insignificantes, debilita a mente e intoxica a alma. Irmãos, o tempo é sagrado! Não temos tempo a perder! Entretanto, saibamos que não existe tempo perdido, pois o tempo não corre contra a gente, ele corre com a gente!

"Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." (Mateus 6;25-34).

"O segredo da saúde mental e corporal está em não lamentar o passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sábia e seriamente o presente." (Buda).