quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Dar o peixe ou ensinar a multiplicá-lo?

Num dia bem quente, um pescador ensinava o filho a pescar, quando uma idosa fraquinha, pobrezinha e com muita fome pede peixe. Prontamente, ele dá vários, além de água gelada, dinheiro, o próprio boné, e braços amigos a conduzi-la à sombra. Garantiu comparecer toda semana no mesmo ponto, na mesma faixa de horário. Seu filho porém, intrigado, indagou:

- Pai, o senhor não me ensinou que devemos ensinar a pescar? Por que então hoje fez o contrário, dando tudo de mão beijada para ela?

O pai então, com toda a leveza e sabedoria, o adverte:

- Cuidado, meu filho, com essas "pseudo-sabedorias". Eu te ensinei a pescar num outro contexto, visto que sou seu pai e sei até onde vão suas forças. Escute bem o que vou lhe afirmar: O hipócrita utiliza-se de princípios verdadeiros para servir-se de seus valores egocêntricos. Muitos pescadores, das mais diversas águas que banham para além dos oceanos, ocupam ilustres cargos com a missão de promover a justiça pela igualdade. Discursando ensinar a pescar no lugar de dar o peixe, não fazem nem uma coisa nem a outra, isso quando não subtraem o peixe dos mais famintos. Meu querido, ao matarmos a fome do outro, que essa fome recaia sobre a gente, para que assim permaneçamos eternamente sedentos da felicidade e do consolo que só o amor ao próximo reverbera em nossos corações! Por outro lado, meu bem amado, são tantos os que auxiliam o semelhante de barriga cheia, para satisfazerem os próprios apetites reprimidos, carências, anseios, ressentimentos... , tudo o que retrai a alma e engendra a inércia e o descompromisso com a prática da caridade. Vamos sim ensinar a pescar! Agora, deixar de dar o peixe a quem não tem vara, anzol nem linha, filho, é história de pescador que estigmatiza de preguiçoso quem é pobre e trabalhador! Esse sim, é preguiçoso!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

As duas asas da Sabedoria.

A Inteligência era maior que si...
feito criança a erguer o calcanhar
não sabia se mirava os mais baixos para rir
ou vexava-se com os mais altos, e então chorar.

A Inteligência detestava a Simplicidade
mas a Simplicidade não detestava a Inteligência
uma tinha o domínio da humanidade
a outra dominava a própria consciência.

A Simplicidade, porém, via-se sem rumo e sobrecarregada
acolhia aos poucos a Inteligência, sua nova aliada
duas asas unidas elevaram o homem a uma esplêndida morada.

Inteligência e Simplicidade descobriram não vagar em vão
pertenciam a um mesmo ser projetado para a perfeição
rodavam o mundo e ignoravam viver no mesmo coração
Sabedoria é a ciência da maturidade em total contemplação!

"A simplicidade é o último degrau da sabedoria." (Khalil Gibran).

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O Pássaro Desolado.

A gorjear pela mata, um pássaro voava radiante. O desmatamento, porém, fez o paraíso literalmente desmoronar. Deprimido, o passarinho agora julgava-se inútil, como se a própria voz, tão aclamada, desmerecesse qualquer contemplação. Para o bem da floresta, ele estava totalmente enganado, pois nas raras vezes em que se permitia cantar em meio àquela devastação, demais seres vivos eram irresistivelmente arrebatados, porque encontravam em suas melodias a paz que a ação humana havia lhes tirado.

Rendendo-se à comiseração coletiva, aquele ser alado em tristeza profunda subestimava o seu potencial de transformar o mundo ao redor. O homem insiste em fazer o mesmo diante dos fantasmas sociais que se apresentam como flagelos destruidores mas que trazem consigo a redenção e germinam as sementes das mais frutíferas virtudes decorrentes da empatia e do amor ao próximo, ao consagrar nosso poder de reação às crises humanitárias, as quais distinguem os partidários da desolação dos entusiastas da esperança...