sexta-feira, 17 de março de 2023

O melhor amigo da calça.

Três amigos rivais concorriam ao status de "o melhor amigo da calça". Um era o bolso direito frontal, outro o seu vizinho da esquerda, enquanto o último situava-se na traseira da calça, de seu lado direito. O bolso frontal direito, habitualmente responsável pelo relaxamento da palma da mão quando em repouso, praguejava por não receber dinheiro, mas somente uma mão vazia. Já o bolso à esquerda da cintura, farto em dinheiro, dilacerava-se por não sentir o toque e calor que aconchegava o bolso direito.

Ambos, bolsos direito e esquerdo, injuriavam-se contra um dos bolsos detrás (o da direita), o qual, no mesmo grau, os detestava em contrapartida, pois considerava-se um bolso tratado com insignificante aproximação e intimidade, pois tudo lhe parecia sério e friamente formal. Somente em momentos importantes era requisitado: nada de afeto ou dinheiro, só responsabilidade e papéis pontuais inseridos num invólucro de couro. Mesmo assim, ser o bolso do porta documentos sempre fora o sonho de consumo dos dois bolsos laterais, porque sofriam muito por supostamente não serem amigos o suficiente para se confiar os segredos mais íntimos.

Contra todas as tendências porém, entra em cena a figura do bolso posterior esquerdo, exclamando:

- Bendita calça e seu portador, obrigado por eu fazer parte de suas vidas, principalmente nos momentos mais difíceis, como um prestativo lenço...

"Belo, é tudo quanto agrada desinteressadamente." (Immanuel Kant).

"O amigo deve ser como o dinheiro, cujo valor já conhecemos antes de termos necessidade dele." (Sócrates).