segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A Erva da Fé.

Acometido por uma doença desconhecida, um cacique roga ao seu pajé por uma ação urgente. Em contrapartida, o curandeiro temia confessar sua impotência diante de um caso aparentemente intratável, o que o levou a forjar uma erva especial para despertar uma melhora sugestionada pela confiança em sua pessoa e em seu falso produto, condicionando o tratamento à fé, ao jejum e ao repouso. No entanto foi um tremendo fracasso, pois o cacique não teve fé o bastante. Então o experiente feiticeiro o surpreende com uma outra técnica, garantindo:

- Amado cacique, ofereço-te agora esta outra erva, de eficácia absoluta. Dessa vez não precisa de cuidado algum, tampouco de fé, basta ingerir duas vezes ao dia.

Dias depois, o líder da tribo recobra a saúde, graças a um vegetal sem qualquer propriedade terapêutica.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

A Ilusão do Vestuário.

Caio vestia-se bem como ninguém, vivia na vanguarda da moda e adorava exibir-se. Sua segunda paixão era trilhas e explorar a natureza. Certo dia percorria uma trilha simples, a qual dava numa queda d'água bem acessível. Usava uma blusa nova de grife, de tecido leve e frágil, esforçando-se ao máximo em protegê-la de galhadas, folhagens e de quaisquer superfícies capazes de danificá-la, no intuito de realizar uma façanha inédita: chegar à queda d'água com a blusa intacta, sem manchas ou desgastes, para produzir o vídeo de trilha mais viral da internet. Enquanto porém filmava com a mão esquerda o próprio feito pela câmera do celular, seu pé resvalou num cascalho, e como não podia manchar a intocável blusa apoiando-se em ramos secos, tentou equilibrar-se sozinho com o braço direito, caindo fatalmente sobre um rochedo quatro metros e meio abaixo...

A infeliz história de Caio remete a uma outra igualmente triste, cujo elemento central não é a figura de um jovem aventureiro que gostava de se vestir bem e realizar façanhas, nem de qualquer outro caso parecido, mas a do homem na Terra: o tolo ignora que a vida vale muito mais que as vestes, como a alma vale muito mais que o corpo, o qual constitui mera vestimenta do Espírito Imortal. Impossível à criatura completar a trilha da existência sem expor sua roupa perecível às adversidades do percurso até as esferas sutis, bem como o indivíduo consciente de si subjuga o corpo ao próprio ser afim de assegurar o equilíbrio ante as vicissitudes da jornada.

A importância dada ao vestuário é comparável a doentia importância que damos à matéria compacta de que somos revestidos temporariamente. A trilha é a vida no plano físico, o trilheiro é o espírito humano, sua veste é o seu corpo de carne, e a queda d'água é o seu destino na espiritualidade após superar os revezes da caminhada terrena. Salvar-se custa o desapego à indumentária carnal, e salvar a indumentária carnal custa a paz, a liberdade e a sobrevivência...

terça-feira, 15 de outubro de 2024

O Grão e a Gota.

- Seria feliz se vivesse na imensidão do mar - Lamentava um grão de areia prostrado ao sol.
- Seria feliz se vivesse no calor da areia - Lamentava uma gota do mar fascinada pelo sol.

Um belo dia contudo, grão e gota seriam submetidos às constantes transformações da existência: O grão, que era quente, foi carregado pela água fresca, enquanto a gota, que era fria, juntou-se à areia ardente, graças ao ímpeto dos ventos, ondas e marés que regem a vida na Terra e nos convidam a pensar com a natureza.

O grão de areia, exultante com a chegada ao oceano, precipitou-se porém em seu leito, pois, sendo rocha, não pode pertencer às águas do mar. O mesmo ocorreu com a frustrada gota salgada a qual, sendo água, não pôde aderir-se à areia e evitar o regresso ao oceano...

A eterna dança "grão/gota" é lição para a alma: Por vezes, sentimos que o ambiente em que vivemos desfavorece a conquista de nossos melhores ideais, comprometendo nosso poder de ação frente às vicissitudes da vida. Passamos então a idealizar conjunturas fantasiosas, na crença de que determinados cenários poupariam-nos do desalento, do insucesso e dos vícios de comportamento ainda não autodeclarados.

Feito o grão de areia que sonhava com a grandeza do mar, hiperestimamos realidades distantes em detrimento da nossa, porque difícil é aceitar que, dentro ou fora d'água, a areia permanece sendo areia, assim como a gota do mar segue fria após passar pela areia aquecida da praia. Grão e gota trouxeram consigo o meio em que viviam, segundo a própria natureza íntima, julgando mudar de vida somente por mudarem de localização.

Ambos realizaram o grande sonho, mas o grande sonho não os realizou... E por fim, para onde a vida nos levar, levemos conosco a seguinte verdade: Seja onde estivermos, somos o que somos!

domingo, 6 de outubro de 2024

"Deus é mais!"

Gabriel, radiante pelas férias escolares, queria conhecer o mundo em um só mês. Seu pai porém, um homem de fé, ressentia abrir mão de um sequer culto semanal da igreja a qual frequentava fervorosamente. Unindo a cruz a Jesus, ou ainda, o útil ao agradável, decidiram viajar pelo mundo na busca por sinais de Deus.

Primeiramente encararam o gelo de países nórdicos. Sapiente, o pai pede a Gabriel:
- Querido, peça ao guia turístico que aponte na direção de Deus. O guia, ouvindo a brincadeira do pai, aponta para o sol no horizonte, despertando os mais espontâneos risos.

Vários dias depois, partem para um outro destino, bem mais longe, um grande deserto. Empolgadíssimo, Gabriel pede ao guia que aponte para Deus. Rindo bastante, o homem aponta para as nuvens com total ânimo e satisfação.
- Deus não está no sol? - retrucou a criança curiosa.
- Deus é mais! - discordou o cicerone gargalhando.

Gabriel então constatou que as nuvens estão para o homem do deserto, assim como o sol está para o homem do gelo.

A viagem seguia alucinante, e o pai da criança eufórica em perceber o Divino o levou a um vasto oceano, para passearem de barco a vela. Parece que o crente já conhecia a resposta do terceiro guia, o qual demonstrava aos viajantes a incrível experiência dos antigos navegantes ao ser surpreendido pela mesma inocente curiosidade.
- Deus está bem aqui! - Apontou o último guia daquela inesquecível viagem para o vento que agitava a vela e conduzia a navegação, para a diversão do passeio e de todos os adultos presentes.
- Deus não está nas nuvens chuvosas? - questionou o menino.
- Deus é mais! - brincou o rapaz fazendo o sinal da cruz.

Entusiasmado com o interesse de Gabriel em desvendar Deus, seu pai profere um breve discurso para contagiá-lo ainda mais:
- Filho, o homem que passa frio vê Deus nos raios solares, o que passa sede e calor o vê nas nuvens abastecidas, enquanto o que percorre o mar a vela o encontra nas forças do vento... Pois bem! Estão certos. Mas, ah! Estão errados quando dizem "Deus é mais!", supondo que Deus só age da forma que lhes convém. Contudo, meu bem mais precioso, falta ainda visitarmos mais um lugar: um modesto orfanato.
- Já sei papai! - interrompeu-lhe Gabriel - deseja levar-me ao orfanato para me ensinar que os órfãos sonham com um Deus carinhoso que educa, sustenta, protege e guia no caminho do bem e da verdade, como é feito lá em casa pela pessoa mais bela que há neste mundo! Ouvindo isto, o pai não se conteve e chorou profundamente, respondendo:
- Eu sei o quanto sou belo pra você, meu filho! Mas você é ainda mais do que o papai!

Com aquele sorriso provocativo, o garoto ponderou:
- Não papai, estou falando da mamãe, não de você.
- Deus é mais! - Exclamou o pai virando o rosto.

terça-feira, 14 de maio de 2024

A Espada do Autoconhecimento.

Sonhando com o posto de Cavalheiro, um simples aprendiz de artes marciais consulta o seu mestre na ânsia de entender a dificuldade em tornar-se um grande guerreiro:

- Mestre, eu nasci para lutar! Falta-me apenas uma espada de qualidade!

- Antes de qualquer lamentação, - disse o mestre - reflita comigo: O melhor Cavalheiro é o que possui a melhor espada, ou a melhor espada é a que possui o melhor Cavalheiro? Vou lhe contar uma bela fábula:

Havia na floresta uma profusão de espécies de insetos, e muitas delas lamentavam-se diante do êxito dos gafanhotos, por multiplicarem-se aos trilhões devorando vegetações inteiras em pouquíssimo tempo. Inconformados, besouros resmungavam:

"São bem sucedidos porque contaram com a sorte de adquirirem, com o tempo, o verde das vegetações em que desenvolveram-se, camuflando-se de tantos predadores. Com essa vidinha fácil e segura qualquer outra espécie conseguiria dominar toda a floresta."

Aconteceu, porém, que a floresta foi tomada por um grande incêndio, e tantas espécies sofreram uma tremenda derrocada na população geral de indivíduos. Por ironia do destino, "os gafanhotos sortudos de vida fácil" foram um dos únicos seres não afetados pelas implicações do incêndio, migraram para outros habitats, e no decorrer de várias gerações, retornaram triunfantes à floresta, agora renovada, e em número ainda maior, para o espanto dos besouros e de outros animais invejosos.

Na tentativa de esclarecer o fenômeno dos gafanhotos, uma coruja propõe uma reflexão revolucionária: "Se são verdes graças à floresta, como explicar tamanha adaptação e sucesso fora dela? Será que os gafanhotos são verdes por viverem em vegetações, ou vivem em vegetações por serem verdes?"

- Portanto, meu caro aprendiz, - concluiu o mestre - reconheça as próprias limitações e o verde que ainda não lhe pertence por natureza, sem desmerecer os que dele já são dignos. Não precisa de uma espada melhor, basta aceitar-se como realmente é. Aliás, busque, em primeiro lugar, a Espada do Autoconhecimento, e com o tempo, todas as demais Virtudes do Guerreiro lhe serão acrescentadas...

domingo, 12 de maio de 2024

Há mais critérios entre o "saber" e o "ser" do que imagina a sua vã filosofia!

No auge do verão, uma anciã dedicava suas manhãs à despoluição de uma praia, conhecida pelo alto volume de lixo sobre a areia. Admirado, um professor de filosofia a aborda para compreender como alguém tão frágil poderia assumir tamanha responsabilidade valendo-se apenas do próprio fôlego e de uns sacos velhos:

- Senhora, de onde vem tanto carinho pelo meio ambiente? Esta é a primeira vez que presencio uma cena dessa magnitude durante todos os meus trinta e nove anos de vida. Sou professor universitário há mais de uma década e sempre ensinei os meus estudantes a exercerem a cidadania. Já estou ansioso para trazer o seu grande exemplo às minhas turmas e às minhas obras!

- Muito obrigada! Poderia recolher somente esta lata para mim? - pediu a idosa com as mãos ocupadas.

- Desculpas, mas hoje é minha folga. De qualquer maneira, não se preocupe, pois amanhã mesmo farei questão de divulgar o seu formidável trabalho de conscientização urbana para essa nova geração de jovens alunos, pouco compromissada com a ideia de um mundo melhor. - respondeu o célebre filósofo.

E assim, tendo finalizado o discurso, fotografou, filmou e publicou nas plataformas digitais tal experiência, descrita como: "A Maior Aprendizagem De Toda A Minha Vida."

"Quem sabe não fala, e quem fala não sabe." - Lao-Tsé.

"Seja você a mudança que deseja no mundo!" - Gandhi.

sábado, 27 de abril de 2024

Uma gota d'água, uma Terra próspera.

Eis que a nuvem saiu a gotejar litoral adentro... E, ao gotejar, uma gota caiu no mar, e, vindo as ondas, levaram-na. Outra gota alcançou o litoral de uma pequena cidade, onde a superfície não era agitada como no mar. Vindo, porém, o sol, a evaporou. Outra gota foi um pouco mais adiante: Caiu nas águas de um belo rio, mas a correnteza a arrastou de volta ao mar, onde evaporou tempos mais tardes. Outra, foi longe! Caiu em terra semiárida e enfim levou vida ao sertão!

Ora, qual seria o fim da vida para nós humanos, pequenos qual gotículas de chuva? A massa dos que desistem dos próprios ideais antes de sequer compreendê-los supera a das nuvens que descarregam-se no mar antes de sobrevoarem o litoral. Há também o orvalho costeiro, aquele que desiste assim que descobre as condições desafiadoras do processo, precipitando-se à beira-mar. Contudo nem todos desistem facilmente, pois há ainda os que se entregam logo antes de cumprirem o propósito. São aqueles que percorrem quase todo o caminho, mas fracassam nas últimas batalhas, à semelhança da gota d'água que não foi capaz de atravessar as zonas fluviais e enfim alcançar as secas. São poucos os que dignificam-se a vivificar a Terra com o seu exemplo de persistência. Estes realizam o improvável pelo simples fato de não desgastarem-se com o supérfluo, nem subestimarem a luta...

ACREDITE EM TUA GOTA!!!

"O campo de derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer." - Abraham Lincoln.

"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível." - Francisco de Assis.

quarta-feira, 13 de março de 2024

A Gratidão, o Apego, a Desistência e os 3 Pássaros.

Uma dona de casa esquecera sua gaiola aberta. Oportuno, o pássaro Gratidão aproveita para acordar o pássaro Apego e o pássaro Desistência, porém este último murmura:

- Temos aqui alimento de graça, e ainda ando debilitado para voar. Podem viajar à vontade, mas eu não posso assumir certos riscos.

Então o pássaro Gratidão e o pássaro Apego passaram horas na tentativa de convencer o pássaro Desistência a libertar-se. Preocupado, embora resignado, o pássaro Gratidão animou-se e voou longe, enquanto o pássaro Apego continuava, em vão, tentando persuadir o amigo desistente a deixar o cativeiro. Ambos não esperavam, mas o pássaro Gratidão retorna para alertá-los de que a dona de casa estaria voltando para fechar a gaiola:

- Saiam daí de dentro vocês dois agora! A nossa dona está vindo para trancá-los novamente!

Ignorando as palavras de quem já voava livre, o Apego deixou o tempo passar e a gaiola da dependência emocional se fechar. Dessa vez aprisionados, Desistência e Apego viam, de longe, o voo inigualável da Gratidão atravessar o céu e atingir a plenitude.

O Apego sempre insiste em tomar para si fardos alheios, em detrimento da própria liberdade...

E você, que apreciou tal história e pretende voar e cantar com toda a fé, que pássaro você é???

"Querias ser livre. Para essa liberdade, só há um caminho: o despreso das coisas que não dependem de nós." (Epicteto).

terça-feira, 12 de março de 2024

Quero ser dessa cor!

Um homem negro subia de elevador com um pai e sua criança. Curiosa, a menina branca perguntou ao rapaz negro:

- Por que você é dessa cor?

Aflito, o pai silenciou. Contudo o jovem negro sorriu e disse à menininha:

- Papai me pintou dessa cor.

Empolgada, a ingênua criança imediatamente gritou:

- Papai, me pinta também! Quero ser dessa cor!

Dessa vez aliviado, o pai então beijou a filha, e nela reconheceu a chave que passa pela fechadura rígida das diferenças sociais, abrindo portas para um mundo de respeito e aceitação: a chave mestra da infância, potência para uma era de igualdade e união...


segunda-feira, 11 de março de 2024

O Macaquinho Amor.

Um menino apaixonado via na avó um modelo de amor e sabedoria:

- Vovó, como conquistar a menina de meus olhos?

- Dê banana àquele macaquinho da árvore. - respondeu amorosamente a vovó.

- Mas vovó, o macaquinho está longe, e deve se assustar comigo. - retrucou o neto.

Sorridente, a velhinha então diz "vem", e o macaco veio. Logo em seguida diz "vá", e o macaco fugiu.

- Como pode?! - exclamou a criança.

- Meu netinho, antes que se apaixonasse, eu já havia batizado esse velho macaco de "Amor": Quando você chama o Amor, ele certamente vem! E quando o repele, ele se afasta até ser chamado novamente. Contudo, saiba que caso este "vai e vem" se torne uma novela entediante, confuso e frustrado, o macaco acaba indo em busca de um novo abrigo... 

segunda-feira, 4 de março de 2024

A Verdadeira Visão da Praia.

Na inocência da infância sonhava ver Deus. Certa noite, quando a lua se fez auréola em minha visão como anjo querubim, uma estrela cadente ofereceu um pedido para mim: Senhor, apareça-me face a face! Vagarosamente então relaxava na cama e despreocupava-me de todas as coisas desta vida, percebendo a presença de algo diferente, bem calmo...

Tocado por uma forte intuição, fui acompanhando um horizonte amigo a me conduzir pelos caminhos exuberantes de uma paisagem calorosa e iluminada por raios solares. Uma brisa libertadora envolvia todo o meu ser, desde o rosto bronzeado até os pés tocados pela areia fofa e molhada, ao passo que a imensidão da água ecoava em tom cadenciado. Ao descobrir tratar-se de uma experiência reveladora, olhei para os lados e vi mil pessoas no auge do verão - eis um paraíso litorâneo! - vibrei. Onde está Deus? - segunda coisa que pensei.

A seguir, todavia, me dei conta de uma coisa totalmente estranha: Todas as pessoas presentes naquela praia surreal eram cegas. Logo voltei-me contra o Deus que me pôs em tal esdrúxulo cenário. Como não bastasse, tive ainda de aturar uma outra cena intrigante: Um daqueles tantos cegos levava consigo uma vela acesa em pleno sol do meio dia. Estarrecido, perguntei:

- Quem é você que invade meu sonho?

- Chamo-me Incredulidade. Dizem haver um Sol de todas as coisas, pura fantasia! Prefiro ter fé em mim mesmo e em meu poder de auto iluminação, pois em algum dia certamente passarei a enxergar. Não é atoa que mantenho minha luz própria.

Horrorizado, segui em frente e avistei um outro cego. Usava um binóculos e perseguia o sol sem qualquer êxito. Inconformado, gritei:

- Burro! O que faz com este binóculos, se aqui nesta maldita praia ninguém enxerga?

- Chamo-me Fanatismo. Creio na existência de um Sol, porém a minha religião só desencoraja, afim de que eu jamais sinta-o na pele. Logo, resta apenas a obrigatoriedade de buscá-lo cegamente, por intermédio das lentes distorcidas do engano e da manipulação.

Entrei em pânico, mas o pior ainda viria. Nunca havia imaginado algo tão ridículo quanto um deficiente visual se curvando para todos os lados do céu com uma simples lanterna em mão, na tentativa de iluminar o próprio sol:

- Cego infeliz! Que lanterna é essa?

Chamo-me Hipocrisia. Cultuo o meu Sol e o revelo a todos, embora o principal seja notarem a minha presença de luz reforçando a beleza do meu Sol!

- Meu Deus, isto é um pesadelo! Retire-me já deste inferno! - blasfemei.

- Sou cego, meu filho! Poderia me levar ao mar e me dar um banho? - abordou-me um idoso enquanto eu praguejava contra o universo de meus olhos.

- Com certeza! - respondi com piedade do velhinho.

Diante do oceano da existência, conversávamos pacificamente o pobre vovozinho e eu sobre a triste realidade da praia... , quando ele me surpreende com a seguinte ordem:

- Há um véu em suas vistas! Arranque-o, afinal, em terra de cego quem usa véu é louco!

- Como assim? O senhor é cego e aponta um véu em mim?

- A triste realidade da praia - disse a voz da experiência - é somente o reflexo de seu vazio propondo respostas que satisfaçam o anseio de ser superior aos outros, e é por conta disso que o véu da ilusão passa a sensação de luz perante trevas alheias...

Cada dia mais atento a este antigo sonho, hoje, para mim, ver Deus face a face deixou de ser um drama pois, na real, o encontro com o Criador ocorre quando a Incredulidade, o Fanatismo e a Hipocrisia revelam-se obra de minha própria sombra, a qual concebia um Sol Imaculado para ofuscar a ausência de luz a entorpecer um espírito infantil e dorminhoco. À medida que fui cultivando bons pensamentos, por uma consciência leve e isenta de valores pueris, mais o véu da superioridade sinalizava a própria ineficácia. Com o fim de conquistar a harmonia interior, ou melhor, "a verdadeira visão da praia", jamais aguardar o verão ou sonhar com circunstâncias especiais, porque a praia em que ninguém morre de desânimo sempre será a mesma: Cegos veem, crianças brincam, e todos comtemplam a paisagem regozijando sumamente da claridade. O despertamento do amor e da paz de dentro não se contenta em apenas oferecer uma visão privilegiada do mar, decidido sobretudo a revelar a mais paradisíaca das visões: A de nosso Pai, o Sol das almas em eterno aperfeiçoamento...

"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas." (Epicteto).