Na inocência da infância sonhava ver Deus. Certa noite, quando a lua se fez auréola em minha visão como anjo querubim, uma estrela cadente ofereceu um pedido para mim: Senhor, apareça-me face a face! Vagarosamente então relaxava na cama e despreocupava-me de todas as coisas desta vida, percebendo a presença de algo diferente, bem calmo...
Tocado por uma forte intuição, fui acompanhando um horizonte amigo a me conduzir pelos caminhos exuberantes de uma paisagem calorosa e iluminada por raios solares. Uma brisa libertadora envolvia todo o meu ser, desde o rosto bronzeado até os pés tocados pela areia fofa e molhada, ao passo que a imensidão da água ecoava em tom cadenciado. Ao descobrir tratar-se de uma experiência reveladora, olhei para os lados e vi mil pessoas no auge do verão - eis um paraíso litorâneo! - vibrei. Onde está Deus? - segunda coisa que pensei.
A seguir, todavia, me dei conta de uma coisa totalmente estranha: Todas as pessoas presentes naquela praia surreal eram cegas. Logo voltei-me contra o Deus que me pôs em tal esdrúxulo cenário. Como não bastasse, tive ainda de aturar uma outra cena intrigante: Um daqueles tantos cegos levava consigo uma vela acesa em pleno sol do meio dia. Estarrecido, perguntei:
- Quem é você que invade meu sonho?
- Chamo-me Incredulidade. Dizem haver um Sol de todas as coisas, pura fantasia! Prefiro ter fé em mim mesmo e em meu poder de auto iluminação, pois em algum dia certamente passarei a enxergar. Não é atoa que mantenho minha luz própria.
Horrorizado, segui em frente e avistei um outro cego. Usava um binóculos e perseguia o sol sem qualquer êxito. Inconformado, gritei:
- Burro! O que faz com este binóculos, se aqui nesta maldita praia ninguém enxerga?
- Chamo-me Fanatismo. Creio na existência de um Sol, porém a minha religião só desencoraja, afim de que eu jamais sinta-o na pele. Logo, resta apenas a obrigatoriedade de buscá-lo cegamente, por intermédio das lentes distorcidas do engano e da manipulação.
Entrei em pânico, mas o pior ainda viria. Nunca havia imaginado algo tão ridículo quanto um deficiente visual se curvando para todos os lados do céu com uma simples lanterna em mão, na tentativa de iluminar o próprio sol:
- Cego infeliz! Que lanterna é essa?
Chamo-me Hipocrisia. Cultuo o meu Sol e o revelo a todos, embora o principal seja notarem a minha presença de luz reforçando a beleza do meu Sol!
- Meu Deus, isto é um pesadelo! Retire-me já deste inferno! - blasfemei.
- Sou cego, meu filho! Poderia me levar ao mar e me dar um banho? - abordou-me um idoso enquanto eu praguejava contra o universo de meus olhos.
- Com certeza! - respondi com piedade do velhinho.
Diante do oceano da existência, conversávamos pacificamente o pobre vovozinho e eu sobre a triste realidade da praia... , quando ele me surpreende com a seguinte ordem:
- Há um véu em suas vistas! Arranque-o, afinal, em terra de cego quem usa véu é louco!
- Como assim? O senhor é cego e aponta um véu em mim?
- A triste realidade da praia - disse a voz da experiência - é somente o reflexo de seu vazio propondo respostas que satisfaçam o anseio de ser superior aos outros, e é por conta disso que o véu da ilusão passa a sensação de luz perante trevas alheias...
Cada dia mais atento a este antigo sonho, hoje, para mim, ver Deus face a face deixou de ser um drama pois, na real, o encontro com o Criador ocorre quando a Incredulidade, o Fanatismo e a Hipocrisia revelam-se obra de minha própria sombra, a qual concebia um Sol Imaculado para ofuscar a ausência de luz a entorpecer um espírito infantil e dorminhoco. À medida que fui cultivando bons pensamentos, por uma consciência leve e isenta de valores pueris, mais o véu da superioridade sinalizava a própria ineficácia. Com o fim de conquistar a harmonia interior, ou melhor, "a verdadeira visão da praia", jamais aguardar o verão ou sonhar com circunstâncias especiais, porque a praia em que ninguém morre de desânimo sempre será a mesma: Cegos veem, crianças brincam, e todos comtemplam a paisagem regozijando sumamente da claridade. O despertamento do amor e da paz de dentro não se contenta em apenas oferecer uma visão privilegiada do mar, decidido sobretudo a revelar a mais paradisíaca das visões: A de nosso Pai, o Sol das almas em eterno aperfeiçoamento...
"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas." (Epicteto).