quarta-feira, 13 de março de 2024

A Gratidão, o Apego, a Desistência e os 3 Pássaros.

Uma dona de casa esquecera sua gaiola aberta. Oportuno, o pássaro Gratidão aproveita para acordar o pássaro Apego e o pássaro Desistência, porém este último murmura:

- Temos aqui alimento de graça, e ainda ando debilitado para voar. Podem viajar à vontade, mas eu não posso assumir certos riscos.

Então o pássaro Gratidão e o pássaro Apego passaram horas na tentativa de convencer o pássaro Desistência a libertar-se. Preocupado, embora resignado, o pássaro Gratidão animou-se e voou longe, enquanto o pássaro Apego continuava, em vão, tentando persuadir o amigo desistente a deixar o cativeiro. Ambos não esperavam, mas o pássaro Gratidão retorna para alertá-los de que a dona de casa estaria voltando para fechar a gaiola:

- Saiam daí de dentro vocês dois agora! A nossa dona está vindo para trancá-los novamente!

Ignorando as palavras de quem já voava livre, o Apego deixou o tempo passar e a gaiola da dependência emocional se fechar. Dessa vez aprisionados, Desistência e Apego viam, de longe, o voo inigualável da Gratidão atravessar o céu e atingir a plenitude.

O Apego sempre insiste em tomar para si fardos alheios, em detrimento da própria liberdade...

E você, que apreciou tal história e pretende voar e cantar com toda a fé, que pássaro você é???

"Querias ser livre. Para essa liberdade, só há um caminho: o despreso das coisas que não dependem de nós." (Epicteto).

terça-feira, 12 de março de 2024

Quero ser dessa cor!

Um homem negro subia de elevador com um pai e sua criança. Curiosa, a menina branca perguntou ao rapaz negro:

- Por que você é dessa cor?

Aflito, o pai silenciou. Contudo o jovem negro sorriu e disse à menininha:

- Papai me pintou dessa cor.

Empolgada, a ingênua criança imediatamente gritou:

- Papai, me pinta também! Quero ser dessa cor!

Dessa vez aliviado, o pai então beijou a filha, e nela reconheceu a chave que passa pela fechadura rígida das diferenças sociais, abrindo portas para um mundo de respeito e aceitação: a chave mestra da infância, potência para uma era de igualdade e união...


segunda-feira, 11 de março de 2024

O Macaquinho Amor.

Um menino apaixonado via na avó um modelo de amor e sabedoria:

- Vovó, como conquistar a menina de meus olhos?

- Dê banana àquele macaquinho da árvore. - respondeu amorosamente a vovó.

- Mas vovó, o macaquinho está longe, e deve se assustar comigo. - retrucou o neto.

Sorridente, a velhinha então diz "vem", e o macaco veio. Logo em seguida diz "vá", e o macaco fugiu.

- Como pode?! - exclamou a criança.

- Meu netinho, antes que se apaixonasse, eu já havia batizado esse velho macaco de "Amor": Quando você chama o Amor, ele certamente vem! E quando o repele, ele se afasta até ser chamado novamente. Contudo, saiba que caso este "vai e vem" se torne uma novela entediante, confuso e frustrado, o macaco acaba indo em busca de um novo abrigo... 

segunda-feira, 4 de março de 2024

A Verdadeira Visão da Praia.

Na inocência da infância sonhava ver Deus. Certa noite, quando a lua se fez auréola em minha visão como anjo querubim, uma estrela cadente ofereceu um pedido para mim: Senhor, apareça-me face a face! Vagarosamente então relaxava na cama e despreocupava-me de todas as coisas desta vida, percebendo a presença de algo diferente, bem calmo...

Tocado por uma forte intuição, fui acompanhando um horizonte amigo a me conduzir pelos caminhos exuberantes de uma paisagem calorosa e iluminada por raios solares. Uma brisa libertadora envolvia todo o meu ser, desde o rosto bronzeado até os pés tocados pela areia fofa e molhada, ao passo que a imensidão da água ecoava em tom cadenciado. Ao descobrir tratar-se de uma experiência reveladora, olhei para os lados e vi mil pessoas no auge do verão - eis um paraíso litorâneo! - vibrei. Onde está Deus? - segunda coisa que pensei.

A seguir, todavia, me dei conta de uma coisa totalmente estranha: Todas as pessoas presentes naquela praia surreal eram cegas. Logo voltei-me contra o Deus que me pôs em tal esdrúxulo cenário. Como não bastasse, tive ainda de aturar uma outra cena intrigante: Um daqueles tantos cegos levava consigo uma vela acesa em pleno sol do meio dia. Estarrecido, perguntei:

- Quem é você que invade meu sonho?

- Chamo-me Incredulidade. Dizem haver um Sol de todas as coisas, pura fantasia! Prefiro ter fé em mim mesmo e em meu poder de auto iluminação, pois em algum dia certamente passarei a enxergar. Não é atoa que mantenho minha luz própria.

Horrorizado, segui em frente e avistei um outro cego. Usava um binóculos e perseguia o sol sem qualquer êxito. Inconformado, gritei:

- Burro! O que faz com este binóculos, se aqui nesta maldita praia ninguém enxerga?

- Chamo-me Fanatismo. Creio na existência de um Sol, porém a minha religião só desencoraja, afim de que eu jamais sinta-o na pele. Logo, resta apenas a obrigatoriedade de buscá-lo cegamente, por intermédio das lentes distorcidas do engano e da manipulação.

Entrei em pânico, mas o pior ainda viria. Nunca havia imaginado algo tão ridículo quanto um deficiente visual se curvando para todos os lados do céu com uma simples lanterna em mão, na tentativa de iluminar o próprio sol:

- Cego infeliz! Que lanterna é essa?

Chamo-me Hipocrisia. Cultuo o meu Sol e o revelo a todos, embora o principal seja notarem a minha presença de luz reforçando a beleza do meu Sol!

- Meu Deus, isto é um pesadelo! Retire-me já deste inferno! - blasfemei.

- Sou cego, meu filho! Poderia me levar ao mar e me dar um banho? - abordou-me um idoso enquanto eu praguejava contra o universo de meus olhos.

- Com certeza! - respondi com piedade do velhinho.

Diante do oceano da existência, conversávamos pacificamente o pobre vovozinho e eu sobre a triste realidade da praia... , quando ele me surpreende com a seguinte ordem:

- Há um véu em suas vistas! Arranque-o, afinal, em terra de cego quem usa véu é louco!

- Como assim? O senhor é cego e aponta um véu em mim?

- A triste realidade da praia - disse a voz da experiência - é somente o reflexo de seu vazio propondo respostas que satisfaçam o anseio de ser superior aos outros, e é por conta disso que o véu da ilusão passa a sensação de luz perante trevas alheias...

Cada dia mais atento a este antigo sonho, hoje, para mim, ver Deus face a face deixou de ser um drama pois, na real, o encontro com o Criador ocorre quando a Incredulidade, o Fanatismo e a Hipocrisia revelam-se obra de minha própria sombra, a qual concebia um Sol Imaculado para ofuscar a ausência de luz a entorpecer um espírito infantil e dorminhoco. À medida que fui cultivando bons pensamentos, por uma consciência leve e isenta de valores pueris, mais o véu da superioridade sinalizava a própria ineficácia. Com o fim de conquistar a harmonia interior, ou melhor, "a verdadeira visão da praia", jamais aguardar o verão ou sonhar com circunstâncias especiais, porque a praia em que ninguém morre de desânimo sempre será a mesma: Cegos veem, crianças brincam, e todos comtemplam a paisagem regozijando sumamente da claridade. O despertamento do amor e da paz de dentro não se contenta em apenas oferecer uma visão privilegiada do mar, decidido sobretudo a revelar a mais paradisíaca das visões: A de nosso Pai, o Sol das almas em eterno aperfeiçoamento...

"As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas." (Epicteto).