Três homens viviam literalmente no fundo do poço. Ao descreverem as próprias experiências relataram cenários distintos, como se dentro de buracos fosse razoável experienciar uma variedade de visões e sensações.
Dos três, o primeiro sofredor era o menos desditoso, pois o abismo que experimentava não era precisamente um poço, mas uma vasta abertura com alguns metros de profundidade por vários de extensão, tal qual ingrata moradia subterrânea. Divisou quase a totalidade do céu, o topo de uma montanha, a parte mais elevada de prédios, copas de árvores altaneiras e paisagens próximas, já que aquele buraco era relativamente espaçoso e permitia certa locomoção.
Num inferno ainda pior, o segundo sofredor vislumbrou apenas aviões e urubus a voarem dentro de um estreito campo de visão no qual nuvens vagavam tediosas, tudo isso porque o buraco era mais fundo com quase dez metros de profundidade por uns três de diâmetro.
E por fim, o mais infeliz sofredor disse que ao fundo de um poço de dezenas de metros só ficava de pé, uma vez que a área sequer chegava a um metro quadrado. Mal podendo respirar olhou muito acima e notou algo extraordinariamente singelo ao ponto de passar despercebido pelos outros dois desgraçados cujos sentidos restringiam-se aos apelos e distrações da visão: O Brilho Do Sol, a única imagem apreciada em meio às trevas.
Chegou então à seguinte constatação:
"Às vezes é preciso chegar ao fundo do poço mais sombrio para identificar a claridade e reconhecer que sem O Brilho Do Sol é impossível visualizar qualquer realidade..."
"Daria tudo que sei pela metade do que ignoro" (René Descartes).