quarta-feira, 30 de abril de 2025

Solidão.

Às vezes a melodia mais sonora vibra sem eco
A voz canora reverbera na intimidade do ser
Quem ama não precisa de auditório
Em silêncio faz o universo inteiro cantar.

Aprecio a majestade do girassol
Grandioso entre as flores, é feliz por si mesmo
O sol que o faz crescer sobre o campo
Brilha sozinho sem nada pedir.

Sofri a vida toda sonhando com os outros
Faltava-me maturidade, tudo o que eu não tinha
Celebro hoje cânticos de paz e autonomia
Herdei da solidão minha própria companhia!

"Perguntas-me qual foi o meu progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo." (Sêneca).

"Uma voz não pode transportar a língua e os lábios que lhe deram asas. Deve elevar-se sozinha no éter." (Khalil Gibran).

domingo, 27 de abril de 2025

Vista-se bem!

Havia uma loja cuja vitrine dizia: "Vista-se bem para ser bem visto." Entendendo o recado, um jovem universitário que cursava publicidade entra no estabelecimento para sugerir:

- Prezado gerente, peço licença para propor um novo slogan a esta loja: ao invés de "Vista-se bem para ser bem visto", que tal "Vestir-se bem e ser bem visto sempre valem a pena!"?

- Por que confiar neste seu slogan? Qual seria a diferença? - questionou surpreso o administrador.

- Se o perfil da marca atrai principalmente jovens - respondeu o estudante -, vamos sim conquistá-los com a recompensa de "ser bem visto". Contudo alcançar só a quem preocupa-se unicamente com a própria reputação não é o ideal da moda, pois restringiria o vestuário e toda sua preciosidade ao anseio de pertencer a grupos sociais. Na realidade a moda oferece muito mais que inclusão ou pertencimento, e "vestir-se bem" é sobretudo um fim, não apenas um meio. Estudioso de publicidade e amante da moda, sinto que a alma do sucesso é ver o mundo como ele poderia ser, não simplesmente como é... Eis a razão por que repensei o slogan confiando que nada é tão bom que não possa vir a melhorar.

A partir deste encontro providencial, gerente e universitário tornam-se aliados, e então a prosperidade assume o comando das vendas no decorrer de alguns anos... Todavia nem só de êxito vive um negócio: a instituição ainda viveria uma crise sem precedentes, e a única opção seria vendê-la à concorrência. Realista e incisivo, o publicitário discorda da decisão da equipe de manter a empresa, da qual tornara-se peça fundamental. Em poucos anos, diante da falência e do fracasso, a dirigência arrepende-se por não acatar a ideia do jovem, o qual a essa altura já cursava sua paixão alternativa, ciências econômicas. Próximo de concluir o segundo curso, o comunicador nato elabora uma fala inesquecível:

- Quando eu trabalhava somente com comunicação dizia que a alma do sucesso é ver o mundo como ele poderia ser, não simplesmente como é. Hoje, com os olhos de um economista, sinto que a alma do sucesso pode significar também o oposto, isto seria, ver o mundo como ele é, não simplesmente como poderia ser... Eis a razão por que discordei da decisão da equipe considerando que nada é tão ruim que não possa vir a piorar.

terça-feira, 15 de abril de 2025

O Conhecimento, a Certeza e a Verdade.

Pelos campos da razão, o Conhecimento buscava a mais bela esposa entre as virtudes intelectuais. Tinha várias pretendentes: a Experiência era linda e cativante, mas a Arte fazia-lhe as melhores poesias, enquanto a Notoriedade seduzia com um brilho bem peculiar, embora fosse a Inteligência a companheira de todos os instantes.

Em contrapartida, o Conhecimento não conseguia se livrar de um relacionamento tóxico com a amante, a Certeza, pois, com ela, tudo parecia previsível, alcançável e fácil de resolver. No entanto, ela lhe arrastava para várias ciladas, a começar pela promessa de tudo saber, o veneno mortal da Certeza, a vilã mais sedutora dentre as virtudes cobiçadas pelo Conhecimento.

Triste, vazio e decepcionado com todos os amores de sua vasta lista de relacionamentos, certo dia o Conhecimento encontraria a própria cara-metade, uma pessoa simples, romântica e serena como o céu, e ao mesmo tempo forte, intensa e excitante qual pimenta de raríssimo valor, a Verdade, a única companheira em quem poderia confiar.

Belíssima em quase todos os aspectos, a Verdade tinha um dos defeitos mais temidos pelo Conhecimento: ela era ciumenta, exigia exclusividade e, de quebra, detestava a Certeza, sua maior inimiga. Portanto, o Conhecimento via-se com o coração dividido entre a Certeza e a Verdade.

Foi uma decisão de mil renúncias, porém ele optou pela Verdade, uma paixão promissora e de respeito, não fútil e vulgar como a Certeza que se atirava para todos os lados, arrancando beijos de qualquer um, mas uma parceira fiel, a melhor mãe para seus futuros filhos.

Ainda assim, volta e meia, o Conhecimento traía o amor de sua vida com aquela amante detestável, pois esta adorava lhe bajular com um jeitinho maquiavélico, que atraía quem quer que fosse a vítima. Para mediar o conflito conjugal, a anciã Sabedoria, a grande conselheira do casal, exclamou ao Conhecimento:

- Se você prefere a Verdade, abra mão da Certeza!!!

"Só sei que nada sei." (Sócrates).

"É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe." (Epicteto).

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Perdendo o fio do Rosário.

O católico confessa ao padre haver humilhado um colega de trabalho chamando-o de "pobre", durante uma discussão. Com toda empatia e respeito, o padre tira do bolso um belo rosário e, num gesto enérgico e impactante, o arrebenta, estarrecendo o devoto, o qual precisou ouvir uma séria advertência:

- Amado, entenda as palavras do Santo Cura de Ars:

"A humildade é para as virtudes o que o fio é para os rosários; tire-se o fio e todas as contas se perdem; tire-se a humildade e todas as virtudes desaparecem."

terça-feira, 8 de abril de 2025

O Leito e as Margens.

O discípulo notou que só procuravam o mestre na privação e necessidade, ignorando-o na abundância ou conveniência. Vendo sua indignação, o mestre aproveita para lhe transmitir um exímio ensinamento à beira do rio que abastecia a aldeia:

- Amado discípulo, observe a seca deste rio: em dias assim parte do leito torna-se margem, enquanto na cheia parte das margens dá lugar ao leito. Ora, as margens constituem tudo o que o ambicioso rio ainda não alcançou, dado que ele acaba onde elas começam. Já o leito é a parte do rio com a qual ele costuma não se preocupar muito, porque julga possuí-la incondicionalmente. Todavia a chuva vai embora, o nível da água despenca, e o rio passa então a desejar o antigo leito, visível como nunca e com aparência de margem. Quando porém a chuva retorna, o rio esquece o que descobrira durante a crise...