quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Anel Cobiçado.

Mãe e filha discutiam sobre relacionamentos afetivos no dia em que a inexperiente moça terminara com seu primeiro namorado. Difícil era convencê-la de que o apego excessivo e a necessidade de controle comprometem a vida a dois. Foi aí que a sabedoria materna entrou em ação com uma história comovente de duas décadas antes, quando a jovem ainda não era nascida:

- Filha, ao ganhar por herança de família uma relíquia preciosíssima que atravessara gerações, um anel de raro valor, fiquei com receio de perdê-lo. Nenhum local era seguro o suficiente para aliviar a ansiedade e o medo de o roubarem a qualquer hora. Bitolada, passei a levá-lo embrulhado num papel para onde eu fosse, acreditando que assim seria sempre meu. Em contrapartida, por ironia do destino, ou por propósito maior, eu e meu permanente estado de alerta foram o bastante para, inadvertidamente, jogá-lo no lixo como se fosse um papel qualquer. Quando dei falta daquele anel tão cobiçado pelo meu ego culpei outras pessoas e as julguei, como se tivessem roubado o amor da minha vida, pois em nenhum momento considerei a possibilidade de eu mesma ter levado-o ao lixo sem perceber. Só compreendi que ninguém havia roubado meu eterno xodó ao observar que, cedo ou tarde, o espírito de controle e o gênio possessivo, naturalmente, afastam o ciumento de seu objeto de afeição, não por azar ou ação alheia, mas pelo doentio e intransigente medo de perder...

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A palavra que ninguém viu...

Numa terapia coletiva, a doutora propõe um jogo de caça palavras:

- Queridos, hoje vamos buscar neste jogo palavras como "dor", "medo", "raiva", "trauma", e mais tantas outras... Valendo!

Quase todos os pacientes encontraram "dor", "medo", "raiva", "trauma", e em seguida as demais palavras não listadas pela terapeuta. Todavia, com sorriso no rosto, sabedoria na alma e elevação no pensamento, ela pergunta a todos presentes:

- Alguém viu a palavra "zen"? Eis o propósito da atividade de hoje: encontrar a flor da paz entre espinheiros de desarmonia. Primeiro vos sugestionei com termos que expressam a face sombria da existência. Então vossas mentes reconheceram este padrão, e focaram somente no que havia de ruim entre cada termo. Nosso cérebro identifica-se com bons e maus pensamentos, de modo a reconhecê-los por toda parte, segundo tendências pessoais. Portanto, amados, ser "zen" é ver o sangue escorrer pela rosa vermelha e enxergar valor onde a maioria vê apenas dor...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O rei está chorando!

Um rei bruto e severo, conhecido pelo gênio forte, era o homem mais "homem" do mundo, pois nada o sensibilizava, nem a morte de seus entes mais próximos. Um dia o rude monarca realiza uma celebração em homenagem ao auge de seu reinado, porque via-se cada vez mais perto de dominar o mundo inteiro. Ao reunir milhares de convidados em seu imponente palácio, o rei começou a ficar com a fronte úmida e vermelha, com aspecto jamais visto.

Soluçando e titubeando palavras pouco nítidas, o tão aguardado discurso interrompia-se cada vez que levava a mão ao rosto. Ninguém jamais o vira gemendo daquele jeito. Membros da corte exclamavam ao público:

- Vejam como nosso grandioso rei está suado! Cada gota de seu suor representa uma nação conquistada na última década!

Perplexos, súditos cochichavam:

- O rei não para de suar! Nunca vi tanta sudorese no rosto!

O povo todo perguntava-se por que o rei estava com o semblante encharcado. No final da comemoração, uma criança inocente grita a verdade para todos os que não acreditavam no que viam:

- O rei está chorando!

OS OLHOS SÓ VEEM O QUE ADMITE O CORAÇÃO...

Inspirado no conto "As roupas novas do imperador" (Christian Andersen).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A Arte da Despretensão.

Indagaram um professor de meditação se havia algo acima da disciplina. Intrigante, o ancião conduziu seus alunos a um local fresco e arborizado, onde tiveram de respirar aceleradamente por quinze minutos ininterruptos. Ao fim do exercício estavam todos arrasados e ofegantes, pois o fluxo demasiado de oxigênio esgotou o sistema respiratório deles. O sábio educador então apresentou-lhes a despretensão, a virtude que sustenta a disciplina:

- Queridos alunos, a pressa é irmã da exaustão, mãe da estagnação e inimiga da saúde (mosteiro da disciplina). Sereis permanentemente disciplinados quando vossa pressa for superada pela despretensão, a arte de despertar com o Sol e adormecer com a Lua...

"Ando devagar porque já tive pressa..." (Almir Sater).