Mãe e filha discutiam sobre relacionamentos afetivos no dia em que a inexperiente moça terminara com seu primeiro namorado. Difícil era convencê-la de que o apego excessivo e a necessidade de controle comprometem a vida a dois. Foi aí que a sabedoria materna entrou em ação com uma história comovente de duas décadas antes, quando a jovem ainda não era nascida:
- Filha, ao ganhar por herança de família uma relíquia preciosíssima que atravessara gerações, um anel de raro valor, fiquei com receio de perdê-lo. Nenhum local era seguro o suficiente para aliviar a ansiedade e o medo de o roubarem a qualquer hora. Bitolada, passei a levá-lo embrulhado num papel para onde eu fosse, acreditando que assim seria sempre meu. Em contrapartida, por ironia do destino, ou por propósito maior, eu e meu permanente estado de alerta foram o bastante para, inadvertidamente, jogá-lo no lixo como se fosse um papel qualquer. Quando dei falta daquele anel tão cobiçado pelo meu ego culpei outras pessoas e as julguei, como se tivessem roubado o amor da minha vida, pois em nenhum momento considerei a possibilidade de eu mesma ter levado-o ao lixo sem perceber. Só compreendi que ninguém havia roubado meu eterno xodó ao observar que, cedo ou tarde, o espírito de controle e o gênio possessivo, naturalmente, afastam o ciumento de seu objeto de afeição, não por azar ou ação alheia, mas pelo doentio e intransigente medo de perder...