sábado, 28 de março de 2026

Mãos Abertas.

Em luto patológico, a criança não parava de chorar pelo cão de estimação. Passadas longas semanas tentando em vão consolar, os pais decidiram presenteá-la com um outro cachorro. Antes de apresentar o novo membro da família, o casal preparou o ambiente doméstico com adornos e brinquedos caninos. Ao chegar da escola, o garoto viu eufórico a casa toda transformada e pronta para a recepção.

Atentos contudo ao futuro homem que educavam, pai e mãe propuseram um inusitado desafio para que ele aprendesse a amar com maturidade e desapego: nos primeiros trinta minutos de contato com o animal, o abraço deveria ser dado de mãos fechadas, sem tocá-lo com a palma da mão. O filho ficou meio confuso, mas como a surpresa era maior que o estranhamento, aceitou o desafio sem hesitar.

Vindo porém ao seu encontro aquele filhote tão fofo e irresistível, não pôde recebê-lo sem a espontaneidade de um abraço genuíno. Descumprindo o combinado, o menino teve de ouvir a mãe questionar:

- Querido, não dissemos para manter as mãos fechadas ao abraçar o cachorrinho, por pelo menos meia hora?

- Perdão mamãe, mas isso seria impossível! - respondeu com o rosto todo lambido.

- Meu bem, o amor é desse jeito! - exclamou o pai com brilho no olhar - assim como é impraticável abraçar de mãos fechadas, não se ama, verdadeiramente, sem desdobrar os cinco dedos pela liberdade de quem deve partir, pois um punho cerrado e incapaz de se abrir a ninguém poderá servir...

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Testemunho da Vovó.

Quando eu agia impulsivamente, Vovó Lila dizia: "dá vontade de fazer? não faz!"
Quando havia uma briga, Vovó Lila dizia: "dá vontade de fazer? não faz!"
Quando eu pedia algum conselho, Vovó Lila dizia: "dá vontade de fazer? não faz!"
Quando eu já não suportava a mesma frase, ainda assim, Vovó Lila dizia: "dá vontade de fazer? não faz!"

E sempre que algo acontecia ela repetia a mesma fala
Soava demagogia, autoritarismo, coisa de gente velha...
Até que um dia, uma visita ingrata e arrogante disse durante o jantar:
"Meu Deus, essa casa tá toda empoeirada, que horror!"

Fiquei indignado com o silêncio de Vovó Lila
Ela porém olhou-me nos olhos e disse: "dá vontade de fazer? não faz!"
Nesse instante, percebi que o "dá vontade de fazer? não faz!"
Não se tratava de uma fala, mas de um sonoro testemunho...

Jornada do Viajor.

Ao seguir por uma via nova e recém descoberta
Rotas do passado insistem em me desviar
O caminho da superação não é uma estrada aberta
Mas uma passagem acidentada e difícil de trilhar.

De uma coisa tenho plena convicção
O mesmo percurso não conduzirá a um lugar diferente
Ou me atrevo a mudar de direção
Ou desisto dos meus sonhos e sigo em frente.

Vários trajetos podem levar a um certo local
Na viagem da vida, sempre foi assim
Não é sobre chegar ao destino final
É sobre fazer da jornada um eterno fim...

quarta-feira, 18 de março de 2026

O Frenético Surdançante.

Um dançarino nato perdera a audição mas não a coreografia da jovialidade e do alto astral. Modelo de resiliência e superação, contagiava doentes, erguia idosos, botava o povo todo pra dançar... Surdo e dançante, era carinhosamente conhecido como "Surdançante", o professor mais agradável da agremiação.

Questionado sobre sua cadência invejável, sobre a capacidade de conjugar ritmos e movimentos sem nada ouvir, declarou:

- Eu sou a voz melodiosa que reverbera a alma e agita o corpo daqueles que são julgados insanos por outros que não podem escutar...

domingo, 15 de março de 2026

Quero...

aproveitar cada momento, sem que o momento se aproveite de mim.

ser quem sou, sem deixar de me pôr no lugar do outro.

viver o dia de hoje, sem os erros de ontem e os problemas de amanhã.

cortar o mal pela raiz, sem atingir demais árvores nem desgastar a natureza do campo, mas cultivar a semente da paz sobre a lavoura do respeito, aparando arestas e podando ramos defeituosos.

progredir, sem perder a simplicidade.

virar a página, sem esquecer a moral da história.

seguir honrando meus valores, sem dramatizar verdades ou repreender equívocos, mas buscar a alma de cada ideal entre as experiências construtivas que ressignificam o passado e edificam o futuro...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Por que as pedras do rio são lisas?

Um grupo de banhistas foi ao rio: a Criança, o Cientista, o Religioso, o Filósofo, o Estúpido e o Sábio. A Criança, curiosa, pergunta:

- Por que as pedras do rio são lisas?

- Porque o atrito cinético entre as correntes de água e as pedras, no decorrer de milhões de anos, causa o fenômeno da Erosão. - respondeu o Cientista.

- Blasfêmia! - gritou o Religioso - Criança de Deus, não dê ouvidos a esse incrédulo que rejeita a Criação, pois tais pedras assim são porque o Criador as fez desse jeito!

- Criança de alma reflexiva e questionadora - reagiu o Filósofo - A Natureza é uma permuta: o contato incessante com o rio faz a pedra adquirir uniformidade, atributo da água, pois ela é, essencialmente, homogênea. Em troca, a água recebe os minerais da pedra, tornando-se rica em diversos componentes. O Universo é aficionado por permutações.

- Deixem de picuinha, seus tolos! - exclamou o Estúpido - Não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe!

O Sábio, preservando a inocência da Criança, disse:

- Meu querido, as pedras do rio são lisas para não machucar nossos pés...

domingo, 25 de janeiro de 2026

A Caminho da Luz...

No fundo do vale, mergulhado em brumas espessas
Não vejo nem sinto o Sol
O frio obscuro é o único guia.

Do alto, uma luz difusa porém
Vai abrindo o caminho a seguir
Julgo que há alguma fonte luminosa
Mesmo infinitamente distante de seu brilho.

Subo a montanha, encaro o nevoeiro
Aos poucos, a paisagem é revelada
Mas ainda não existe nitidez absoluta.

Após longas horas de persistente sacrifício
Bem acima da densa camada brumosa
Respiro enfim um ar perfeitamente puro
Vejo o céu em todo o seu esplendor.

Assim ocorre com a percepção da realidade
Nas profundezas do infinito não pode haver vislumbre
Lá em baixo a visão é turva e disforme.

À medida que avanço monte acima
Passo a enxergar com progressiva transparência
Minhas lentes depuram-se, meus sentidos se completam
Por uma nova perspectiva o caos é dissipado.

São os olhos a lâmpada da consciência
Purificada, goza da plenitude de suas faculdades
Não as adquirire gratuitamente, mas as alcança por determinação.

Contudo, como descrever as resplandecências dos céus?
Somos cegos tentando decifrar as estrelas
Só o farol da experiência faz compreender o intangível
Afinal, poema algum desperta calor na pele...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Campo Paradisíaco.

Não sabia se era sonho ou realidade: eu estava num campo paradisíaco!
Sozinho, tentava entender que lugar era aquele, e como ali fui parar.
Tudo era de um colorido perfeito, só faltavam pessoas para me receber.
Pelo fascinante céu de anil o sol não se deslocava, não se sentia a passagem do tempo.

Sete vívidos arco-íris encobriam ditosas nuvens de algodão... por lá a vida não reconhecia fronteiras.
De árvore em árvore, gorjeavam os pequenos seres alados a cruzarem o horizonte sem fim.
Confuso com tanto deleite, eu buscava meus entes queridos.
Nenhum desígnio ou providência revelavam-me a identidade de semelhante éden.

O ambiente, harmonioso e feliz, carecia de sentido existencial.
Roguei a Deus que enviasse um Mensageiro, alguém para me orientar.
A súplica foi prontamente atendida, e de repente avistei um homem vindo até a mim.
Não sabia de quem se tratava, mas pelo menos eu não estava mais abandonado.

Mesmo sendo um desconhecido, aliviado, eu corri em sua direção e o abracei.
Curiosamente, ele adivinhou que eu estava com sede.
Então apontou para uma exuberante cachoeira que brotava do infinito.
Eufórico, eu me lancei sobre a fonte perene e bebi da água pura e cristalina.

Com um copo na mão, o mesmo sujeito gritou para que eu lhe trouxesse água, alegando não saber nadar.
A cachoeira tava tão boa, que eu o ignorei.
A voz, rejeitada, dessa vez bradou:

- Pobre egoísta, eu sou Jesus Cristo! Saiba que estás num paraíso onde não haverão outras pessoas para dividir alegrias, nem ninguém para incomodá-lo! Aproveite, o paraíso é todo seu...

domingo, 18 de janeiro de 2026

Caminhando, Nadando e Voando...

O Reino Animal precisava de um líder cujo gabarito e popularidade atendesse a cada bioma, ecossistema e vida. Verificou-se a necessidade de uma eleição global, pois o Homem provara sua incompetência como gestor ecológico da Terra. Pesquisas de intenção de voto apontavam três grandes candidatos: O imponente Elefante, com sua força e grandeza entre os seres terrestres; o tão simpático Golfinho, modelo de inteligência e adaptabilidade nas águas; e por fim o inalcançável velocista dos céus, o Falcão.

Por ironia do destino, ou capricho da mãe natureza, surpreendendo todas as faunas do planeta, o vencedor não foi nem o mais forte, nem o mais inteligente, tampouco o mais veloz, porém o mais versátil, aquele o qual melhor soube dialogar com os mais diversos habitats, cuja voz despretensiosa ressoou com a vida nos ares, nas águas e em terras firmes. Um representante capaz de identificar-se com criaturas de paisagens distintas, que voava na presença de pássaros, nadava entre peixes, e corria acompanhado por coelhos: Caminhando, nadando e voando por toda parte, o Pato provou que na ecologia da existência não vence o maior, o mais esperto, ou o mais rápido, contudo aquele que, de perto, melhor conhece as nuances de cada ambiente, comunidade e família, a acompanhar classe por classe, espécie por espécie, e indivíduo por indivíduo.

Enfim, o mais capacitado dos seres vivos para governar sobre os demais é o mesmo que nada na imensidão, voa com a multidão e, lado a lado, caminha sem tirar as "patas" do chão...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Cidade através do Espelho.

Dois discípulos foram levados ao alto de um monte. O rabi, um ser de luz, pôs o primeiro num canto da montanha onde dava para ver toda a cidade através de um simples espelho. A ideia não era apreciar a cidade, mas saber, pelo reflexo da luz, como o homem vê a si mesmo ao colocar-se de costas para a sociedade. Então o rabi perguntou o que o rapaz via. Eis a resposta:

- Vejo meu rosto encobrir a cidade.

Em seguida, o mesmo experimento foi feito com o segundo discípulo, o qual observou:

- Vejo a cidade além do meu rosto.

Exultante com o segundo seguidor, o rabi o nomeou sucessor.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Onde Vive Deus?

A filha pergunta:

- Mãe, onde vive Deus?

- Feche os olhos e abra o coração. - respondeu.

A mulher então pediu à menina para, de olhos fechados, tocar a própria testa com o dedo indicador esquerdo. Depois, ainda de olhos fechados, a criança foi desafiada a tocar o próprio peito com o polegar direito. E por fim, com o dedo mindinho esquerdo, foi levada a tocar o cotovelo direito.

Decifrando o enigma, a mamãe observou:

- Como tens consciência de todo o teu corpo sem precisar vê-lo? Filha, do mesmo modo que a sua Mente está por toda parte em seu Corpo, Deus está por toda parte na Natureza. Portanto, querida, toda vez que quiser entender Deus, feche os olhos e abra o coração, pois Ele vive em ti, em mim, e em todo o Universo!

A Serenidade do Sábio.

Perguntaram ao sábio de onde vinha tanta serenidade. Ele respondeu:

- Quando a razão prevalece, o coração agradece. Na falha da razão, mais racional fica o coração. E se ao coração faltar inteligência, a razão adquirirá experiência. Sendo porém a razão inexperiente, resta ao coração ser paciente. Por isso, não tenho tanto medo de errar, pois quem acerta comemora e quem erra melhora. Ao escolher bem, a gratidão eleva o meu pensamento. Ao escolher mal, a experiência me proporciona maior discernimento...

"O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte." (Friedrich Nietzsche).

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Verdadeira Propriedade.

Um homem ia a um lugar intrigante, ao Além... Preocupado com a vida futura, compõe sua bagagem de objetos que julgava indispensável. Embora cuidadoso, o viajor deu falta de alguns bens num instante em que já era tarde, pois o embarque era iminente.

Desembarcando enfim, avistou um belo alojamento, e lá passou a noite... Ao amanhecer, todavia, desesperou-se, visto que não tinha com que pagar. Sentiu de imediato o medo de ser realocado a uma hospedaria menos digna, quando um ser de vestimenta clara, expressão jovial, coberto por uma luz estonteante, tocou-lhe o ombro e disse:

- Aqui, meu caro viajor, o regozijo é subordinado ao que se tem dentro de si, não ao ouro acumulado à custa de vãs inquietações. Neste plano ninguém pergunta: Quanto tínheis sobre a Terra? Que posição nela ocupáveis? Éreis príncipe ou operário? A pergunta é bem diferente: O que trouxestes no baú do coração? Lágrimas enxutas, presenças amigas, consciência tranquila, tesouros de redenção que nenhuma ferrugem pode corroer? Sede portanto bem-vindo e ide à mais elevada habitação, onde todas as delícias e bem-aventuranças aguardam-te em inestimável êxtase!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

7 lágrimas de um conformista exausto.

Vemos a timidez da virtude sucumbir à audácia do vício.

Ouvimos discursos carregados de lucidez e bom-senso, mas vazios em observância.

Sustentamos valores que justificam arbítrios, e arbítrios que dissimulam valores.

Denunciamos o mal pela palavra sem promover o bem pela postura.

Rogamos ao outro a paz que negamos a nós mesmos e ao mundo inteiro.

Somos peritos em problemas alheios, e alienados em nossas paixões.

Educamos nossos filhos hostilizando a vizinhança...